19/06/2011

As palavras (Pablo Neruda)


1904/1973

Pablo Neruda



... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.

*Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares. (N. da T.)


PS.:Neruda é um dos poetas latino-americanos  que eu mais admiro. Conhecia esse texto de um curso de radialista que fiz no SENAC em 1996, e descobri o que era butifarra o ano passado na região da Catalhuna Espanha.

9 comentários:

  1. também gostos muito dele.. não conhecia este texto..muito bom!
    beijo e bom domingo..

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  2. depois de você, Pablo Neruda :))
    Olá poeta, beijo meu.

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  3. Também adoro Neruda! E esse texto sobre as palavras é lindo... Uma ferramenta que a gente não só utiliza como também molda e produz arte com ela!

    Beijão, Valter!

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  4. Paulo Neruda meu poeta favorito, tanto que meu filho se chama Pablo em homenagem a ele. Esse texto mostra a qualidade das palavras desse grande poeta. Parabéns , eu amei o post. Um abraço e ótimo começo de semana.

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  5. Eu tbm o admiro muito e esse texto é fantastico como tantos outros!
    Belo post

    Beijos!

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  6. Poeta Valter, sua admiração por Neruda é de bom gosto...

    ...E esse é o maior dos sofrimentos:
    não ter por quem sentir saudades,
    passar pela vida e não viver.

    O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
    Pablo Neruda
    BJSS LU... ;)

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  7. oi amigo, tudo bem!!!!!!!passando pra uma visitinha, afinal seu blog é lindo. gosto muito de vim aqui. tenha uma otima tarde.bjs

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  8. Olá Valter tudo bem?..entrei aqui para te dar boa noite e ler essas poesias maravilhosas com essa musica de fundo bonita..
    Seu cantinho é de muito bom gosto..
    abraço e tudo de bom para você..
    titi

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  9. Valter...como todos os poetas, amo as palavras...Obrigada pela partilha feliz!
    Abraços...Mila.

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